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E eu adoraria reinventar o amor contigo.

Um dia um amigo me disse que você sabe que está apaixonado quando se sente idiota.

Eu estou apaixonado.

Você, alguém tão diferente, encantadora não seria se fosse tão igual.

Mas, também, igual a quê. Igual a mim? Já basta eu. Igual a maioria dos que me rodeiam, talvez. Ué, pra quê? Já basta eles. 

Eu amo seu carinho e seu corpo. Gosto de beijar teus seios. Gosto de morder bem de leve teus lábios, gosto de sentir o movimento da tua pélvis em cima do meu pau, enquanto eu aperto bem, bem forte tua bunda e de leve passo o dedo por cima do teu cú. Eu gosto de passar a mão pela tua barriga, gosto de te masturbar, deixar excitada, arrepiada. Gosto também de como segura meu rosto ao me beijar, de como passa a mão pelo meu peito e minha barriga e quando tenta me deixar vermelho de me arranhar. Eu gosto também da forma como me olha ao dizer “eu te amo”, de como encaixa tua cabeça no meu ombro, de quando deita no meu peito, da tua risada, de quando, de vez em quando, você sai igual louca na rua comigo, gosto de perceber feliz ao meu lado, me preocupo quando você não aparenta estar feliz. A única coisa que eu quero é te fazer sentir feliz, amada, respeitada e te passar confiança. A única coisa que espero de você é isso também.

Tudo em você, o corpo, a mente, os sentimentos, acabam sendo perfeitos. Teus defeitos eu enxergo com um olhar poético. Pronto, não vejo mais defeitos. Só vejo luz, amor, tesão. 

Gosto que me ache torto. Pois te acho torta também. E que graça teria se nós, na visão do outro, fôssemos corretos, perfeitos? Não teria graça. Seria chato.

Eu que por cegueira ou tesão (ou os dois, o que resultaria em algo próximo ao amor platônico, sentimento que por motivos políticos e ideológicos eu tenho asco) só penso em você, ao acordar, ao comer, ao dormir, ao fazer carinho nos meus gatos, ao me masturbar, ao assistir tv… não sei.

É. Estou amando. Não sei, não sei. 

Mas há de se construir um amor amigo, um amor companheiro, não simples afetivo, mas divertido, com uma pitada de loucura, subversividade e rebeldia. Não, uma pitada não. Há de se encher a panela.

Ora, o afeto, o carinho, o amor, estes não faltam na relação. Mas eu como bom artista e um nato tagarela, necessito conversar, gritar, debater idéias. É chato só beijar, escrever poemas e textos diversos, abraços, sexo. Há de ter uma amizade.

É bom estar amando.

O ruim de amar é que, numa amizade, as pessoas simplesmente são amigas e estão juntas, sem amarras, mas estão juntas, e se por alguma brincadeira do destino elas continuarem juntas por anos e anos e anos, não vai ser por iniciativa de nenhum dos amigos, acontece naturalmente. Amor não. Minto, amor sim, namoro não. Namoro tem a cobrança, o desejo de ficar por anos, a apreensão, o medo, desconfiança. Amizade, não. 

O mundo precisa reinventar o amor. Torná-lo mais humano.

Ainda não inventaram uma relação, humana.

E eu adoraria reinventar o amor contigo. 

LELM. 14/12/13. À Ju.

caterville:

CAFFEINE YEAH!!!

Ela.

Desde cedinho de manhã eu ando muito maluco por causa dela. 

Como eu, ó, eu, Louis Eugênio… como isso foi acontecer comigo?

Eu chorei. 

Dá para contar nos dedos as vezes que chorei por alguém. 

Ela se apaixonou por mim tem mais ou menos uma semana. Ela foi um pouco mais sã: levou uma semana para se apaixonar. Eu levei menos de um dia para poder dizer com certeza que estou apaixonado. Estou com tanta certeza que ontem um “eu te amo” rebelde escapou da minha boca. 

Eu estou apaixonado. Estou apaixonado por alguém extremamente encantador. Eu tenho medo. Medo por ela ser diferente, medo por eu não ser o que ela julga O Ideal.

Eu chorei. Chorei por causa dela. Chorei por medo.

Eu adoraria que ela soubesse que eu chorei só de pensar na possibilidade de ela deixar de sentir algo por mim tão cedo, de uma forma tão simples.

Eu gostaria que isso que temos durasse muito tempo. Ou, tempo suficiente: bastante tempo.

Aquele foi o primeiro beijo dela. Talvez também seja o meu. 

Meu primeiro que eu depositei tanto carinho que só de pensar em não tê-lo mais… eu chorei.

Talvez eu ande muito dependente dos sentimentos dela. Talvez eu só esteja louco, talvez ela esteja tão apaixonada quando eu. Mas continuo dependente. Ô, que merda. Terei de aprender de amá-la por amá-la. 

Talvez eu esteja mesmo um pouquinho louco.

Eu estou apaixonado. Eu adoraria estar apaixonado com ela. Adoro que ela esteja por mim. Adoraria continuar assim. Adoraria que sempre fosse assim, que compartihemos nossos corpos, nosso afeto em alguma casa abandonada, que demonstremos muito amor, que conversemos, discutamos, aprendemos coisas novas.

Ontem foi um dia perdido no tempo e no espaço. Foi tão bom, tão maravilhoso, que eu poderia até duvidar de sua existência. Nesse dia conhecemos uma ativista vegana, uma advogada, dois poetas, uma pintora, monges hare krishna… conhecemos nossas bocas. Um pouco de nossos corpos. Conhecemos nossos abraços. Eu conheci seu abraço, seu toque. Eu amei seu abraço. 

Ontem nós conhecemos muitas coisas. Agora falta conhecermos a nós mesmos.

Nossa paixão não está aí para sofrer. Que aprendamos a lidar com nossos medos e paranóias! 

Eu me sinto muito bem com ela. Eu gostaria de estar assim por muito tempo. Me dá medo pensar que isso poderia acabar hoje. 

Eu gosto de saber que estou muito apaixonado. Ainda mais, ah, por alguém tão encantador. 

Ela me encanta…

E eu canto para ela.

E amo que ela deite no meu peito 

Enquanto olhamos pro teto.

À Lisboa, meu amor!

Fujamos para Lisboa, meu amor. Arrumemos um quartinho. Lá eles falam nossa língua. Ou nós que falamos a deles. Não será difícil a comunicação, meu amor. Fora que a cidade é muito bonita. Por mais que eu goste, por mais que eu ame São Paulo, vamos armar nossa fuga para Lisboa, meu amor. Entremos num navio de carga rumo à Portugal. Vamos invadir aquelas terras, justo como eles fizeram com as nossas: sem permissão. Mas, diferente de Cabral, vamos espalhar amor, nosso amor, em Portugal. Qual motivo-razão para não fugir para Lisboa comigo, meu amor? Um mês, um ano, uma década, uma vida lá… qual motivo-razão para não? Se eu pudesse, meu amor, além de te levar para Lisboa, levaria São Paulo junto. Levaria São Paulo inteira. Mesclaria o que mais amo nessa cidade -a cidade inteira- com toda a graça de Lisboa. Mas impossível levar São Paulo à Lisboa. Mas não é impossível levar-te. Então… fujamos para Lisboa, meu amor.

LELM. 05/12/13

Pararam todos os carros. Alguns abriram a porta e saíram, outros, com um pouco mais de medo, olharam pelo vidro. Ficaram parados boquiabertos diante de tamanha beleza. Toda luz foi desligada. Nas janelas dos prédios, cabeças e mais cabeças olhando para o mesmo lugar. Alguns quiseram até por a cabeça pra fora da janela, mas, muitas janelas estavam travadas e, muitas delas, foram quebradas. Cada computador foi abandonado aberto ou desligado, e seus usuários foram para a rua, admirar. As donas de casa pararam de cozinhar, aspirar, lavar louças e espiaram pela janela, e depois, saíram para ver a beleza. Cada pessoa que andava enquanto falava ao celular, ao olhar a beleza, caiu o queixo, deixou cair o celular e, a pessoa do outro lado da linha, fez o mesmo. Cada médico e paciente saíram do hospital para olhar a beleza. Ouvi dizer que um tetraplégico se levantou e foi caminhando, sozinho até a calçada, para admirar junto com seu doutor. E os dois, sorrindo, olhando para a beleza que estava lá presente. Mortos abriram seus caixões, cavaram a terra e olharam por cima. Os escritores pararam de escrever, os leitores de ler, e as gráficas de imprimir. Todos foram às ruas, admirar. A cidade, o país, o continente estava calado. Todos estavam olhando para cima. Uns sorrindo, outros com a boca aberta, parecendo zumbis. Não havia mais som, só o som de passos de mais pessoas indo pras ruas para admirar. Todos largaram seus postos, seus trabalhos, para admirar. O bandido parou de roubar e o policial de prender. Não havia quem roubar, este estava boquiaberto admirando. E não havia quem prender, o ladrão já estava admirando também, junto com quem seria sua vítima. Dizem que até a luz abandonou seu posto de iluminar para observar rapidinho a beleza. Soldados de ambos os lados da guerra pararam de se matar, olharam. Os operários saíram das fábricas e ficaram olhando das calçadas, a beleza. Podiam abandonar a linha de produção sem medo, o patrão estava observando também, mas da janela da sua sala.

Todos pensaram: está um dia lindo.

levynite:

IT BOINGED ONTO ITS OWN HEAD

Esperando o ônibus de noite em São Paulo

Pela cidade

Sem muito alarde

Pessoas nuas 

Nas calçadas das ruas

Peladas da felicidade

Vestindo a tristeza

Com muita fineza

Tecido de dor

Carente de amor

Uma grife, uma beleza

Em cada carro

Eu me amarro

Amarra em mim

Uma lição

A poluição 

É mero refresco

E em cada prédio

Muito mais tédio

Beleza antiga

A casa d’amiga

Para a dor, o remédio

Em cada esquina

Em cada travessa

Só me interessa

Pela minha pressa

Que hora o ônibus chega

O ônibus tarda a chegar

As horas eu peço 

O moço responde

"Já passou das onze"

Eu mereço, eu mereço…

E na favela a dentro

O fogo já apagou

O povo sumiu

O trator chegou

E o prédio de luxo subiu 

A árvore tirada

Botada num caminhão

Não será replantada

Nem tinha cupim

Mas mesmo assim

Foi arrancada

E ali na calçada

Do outro lado da rua

Arruma o cobertor

O senhor esconde sua dor

E sorri dizendo “boa noite”

O caminhão passa

E atrás vem correndo

Com um sorriso no rosto

Correndo com gosto

Um lixeiro ao relento

Cada sorriso em São Paulo 

Cada alegria em São Paulo 

E um grito de resistência

O amor resiste

A felicidade persiste 

E apesar de tudo 

A alegria me veste

Apesar da injustiça

Apesar da tristeza

Ser uma grife, fineza

Ainda visto a alegria

Ainda vejo a beleza

Repare bem.

Um homem, talvez beirando seus 50 anos, senta com alguém que deve ser seu filho num banco do vagão do metrô, perto da porta à esquerda. Ele olha para a televisãozinha. Olha para suas mãos. Olha para o garoto. Olha bem para cada um dos poucos passageiros que há naquele vagão. Repare bem no que eles não dizem, disse ao filho, Todos calados, sofrendo, gritando, pulando de alegria. Todos robôs, inertes, sem emoções. As pessoas são programadas para não sentirem mais. E se sentem, não podem demonstrar. Tem que ficar calado, comportado, silencioso, não perder a compostura, não demonstrar. E se demonstrar, não pode ser em público. Tem que sofrer sozinho, chorar sozinho, limpar as próprias lágrimas e nunca contar que chorou. E tudo isso trancado num quarto para não te escutarem. Deuses são perfeitos, santos são perfeitos. Eles nada são, eles só estão lá. Nada demonstram. Arre, estou farto de semideuses. Onde é que há gente no mundo, meu deus do céu. Repare bem no que estas pessoas não dizem, e elas nunca dizem nada. Mas estão dizendo muito.

"Tiraram o tempo, o lugar, o nome. Restou-nos o caos. 

O caos, estado que não pertence nem a Deus ou ao Diabo. Pertence aos homens e a sua infinita ignorância e hipocrisia. Antes era bom quem não era mau, mas o que faz de alguém parte do mal? O que faz do mal, mal? O mal não existe, muito menos o bem. O bem, o mal, o tempo, o espaço são do tempo que antecede o caos. Agora estamos no que sucede o caos, continuamos não tendo, não sendo, não existindo. A paz sucede o caos, a guerra antecede o caos e, o caos, é a linha entre as duas. Sabemos que não estamos mais no caos pois há tempo, que é vestígio do que antecede o caos. Podemos dividir o tempo em A Era do Caos, Antecedência do Caos e O Que Sucede o Caos. Criamos um calendário de 20 dias cada mês, com os meses de Começo, Luzia, Morte e Vida, Riso, Ventre, Irmãos, Descanso, Azul, Secura, Jovens, Antes do Fim, Fim. Há tempo. Não há espaço. Há espaço, mas não há nomes. E do que os nomes importam, nada mais existe e nada mais chamamos. Vagamos. Sabemos, isto é terra, mais pra lá é mar. Terra se vive, mar, não. Isso importa. Mas há muita terra. Do que chamaremos esta terra, não sabemos. Chamaremos de Terra de Sucede o Caos. Precisamos encurtar, Tesuca. Tesuca é o nome. Não sei meu nome. Não tenho nome. Até tenho nome, mas ele vem do antes-caos, então de nada me serve. O caos me tirou tudo, no caos eu era só uma pessoa, parte de um todo. Nunca houve indivíduo, mas é só no caos que percebemos a verdade. O antes-caos era carregado de hipocrisia, o caos foi libertação, e agora temos a verdade”.

- O Que Sucede o Caos

Depois do Caos

Dois homens sentavam na sarjeta duma calçada comendo um pedaço de pão francês. Há corpos em decomposição dos dois lados, há algumas pessoas se reunindo ali na esquina, há cachorros famintos devorando os corpos e há pessoas com o resto de respeito aos mortos, espanta os cachorros. Mais um dia qualquer. Um dia de muita paz, aliás. Conseguiram pão. Pão novo. Pão feito na hora, pão quente. Há padeiros ainda, mas não há padarias. Se achar um forno, um molde, gás e algo pra acender o fogo, se faz pão. Mas nada disso se acha mais. Muito menos os ingredientes. Nos primeiros dias, as pessoas começaram a comer o fermento puro. Com o que cozinhariam? Não havia mais culinária, havia comida. E, em cada esquina, em cada rua, uma palavra estranha ao idioma local, estranha a qualquer idiota de qualquer localidade, Suh-Tlam, foi pixado, grafitada, escrita e colada. Um dizer profético, algo que dizia: estava para acontecer e sabíamos que estava. Podíamos ter evitado. Mas não evitamos. Seu pão ainda está quente?, perguntou o homem da direita sentado na sarjeta. Esfriando, respondeu o da esquerda. Precisamos achar comida, Mas onde há comida? Tudo está vazio, os restaurantes funcionam se levarmos ingredientes roubados para serem preparados, mas não há mais nada que roubar, Então plantemos, Plantar, onde, nessa terra seca, na pedra de asfalto? As praças serviram de banheiros, acabou-se terra fértil, Sacos de terra não foram procurados nos supermercados, Ainda há supermercados?, Poucos que não foram consumidos pelas plantas e os animais, provavelmente gatos devem ter rasgado os sacos de terra para usar como banheiro, E mesmo se houvesse terra, não há sementes, Há frutas, há sementes nas frutas, Sementes são nutritivas, devemos comê-las, Não haverá mais frutas. Os dois foram interrompidos, escutaram um barulho a muito tempo perdido, quase esquecido. Barulho de rodas, de motores. Era um carro. Uma carruagem de fogo dos deus no submundo. Havia carros, havia gasolina, afinal, não se bebe gasolina. E não tem mais para onde ir, então, pra que carros. Ou todos estão mortos, ou estão vagando por aí, levando o que encontram de gás, fósforos, isqueiros, fermentos, farinha, ovos para os restaurantes, esperando que entre os cozinheiros tenha um padeiro. Pão virou alimento base. Pão e laranjas. Laranjeiras foram plantadas, cresceram rápido. As sementes eram abertas de seus sacos nos supermercados e devoradas, quando as flores já tinham ido parar na barriga de alguém. Era difícil plantar algo pois a fome era grande, fazia mais sentido comer a semente do que esperar a planta crescer. Os primeiros dias foram assim. E a maioria dos dias ainda está assim. Vamos andar, disse o da esquerda, Procuremos comida, capaz de acharmos um mercado cujas portas foram trancadas ou estoque não foi violado. O da direita nada disse, estava mastigando o pão, mas fez sinal de sim com a cabeça e se levantou.Andaram um pouco mais. Carros estão espalhados por aí, muitos com gasolina e a chave no contato. Mas não se tem pra onde ir. Procurar comida? Só se procurar comida com o pé no chão. É preciso andar devagar, ter o olfato apurado, passar o nariz em cada parede, cada porta, cada janela, na esperança de que se sinta do outro lado o cheiro de algo que possa servir como comida. E assim fizeram. Narizes para cima e coluna baixa, mostrando os dentes a cada fungada, como ratos. Senti algo atrás daqui, disse o da direita, Um cheiro?, Outra coisa, não sei o que é, instinto, Sente instinto? Sente instinto cheirando?, Não, claro que não, mas sinto que há algo aqui, Há nada aqui, há nada a lugar algum, isto é um portão enorme, aí deve ter servido de abrigo e logo nos primeiros dias retiraram todos os alimentos daí, Para, para! Vamos entrar, Como, se o portão está fechado, Chaves fecham portões, não pessoas, o que o homem não destrói outro pode reconstruir, Para de filosofar e diga logo que sabe arrombar trancas, Sim, sei, Então arrombe, espera o quê?. Os dois estavam impacientes. Há tempos não comiam, o pão foi um tira gosto e, se quisessem mais pão, não poderiam ter, acabou os ingredientes. O da direita arrombou a tranca e com a ajuda do da esquerda, abriu o portão. Lá viram um enorme galpão, cheio de carros chiques, um ou dois helicópteros, limusines. Deve ter sido onde quem antes tinha dinheiro pretendia se esconder, disse o da esquerda. O da direita ficou calado. Olhava para um dos helicópteros, seus olhos brilhavam. Passava pela sua cabeça, Meu senhor Cristo, como pilotar essa lata, dê-me um benção. Helicópteros, podemos voar daqui, disse da direita, Não há nada além daqui e é impossível sair, as cidades ao redor foram isoladas.Calaram-se. Repararam numa porta no canto esquerdo, Vamos vasculhar os veículos, talvez há comida lá, disse o esquerda, É um abrigo para as pessoas que podiam pagar, deve haver comida, Quando tudo acabou, devem ter levado toda a comida e alguns carros, certamente há cidades ainda inteiras, no interior, Devia haver muita comida, deve ter restado algo, Espero que você esteja certo. A porta rangia e estralava quando tocada, estava enferrujada, a parede esta úmida. A porta não abria mais, mas estava fraca. Um chute e ela cairia, mas tanto a queda como o chute fariam muito barulho, o galpão produzia eco e esse som iria para a rua. Iriam atacar o lugar como animais. Mas, o que nos diferenciava dos animais até um tempo atrás, não existe agora. O ego humano caiu mas ao invés de fraternidade e solidariedade para a sobrevivência, o terror subiu. Nós nunca soubemos o dia de morrer e sempre soubemos que poderíamos morrer amanhã. Mas sempre marcávamos algo para fazer amanhã, daqui a uma semana, mês que vem. Não se planeja mais nada. Mesmo sabendo que poderíamos morrer amanhã, nunca pensávamos nisso antes de sair, Cristo, vai que morro hoje, não posso morrer, quem pensava nisso era tido como depressivo, louco, hoje todos pensam nisso. Mas as pessoas agora aproveitam mais um mundo inseguro do que aproveitavam antes. Não há o amanhã. Amanhã, ontem, palavras quase esquecidas. Nunca existiu o amanhã ou o ontem, sempre só existiu o hoje. Mas só percebemos isso quando relógios não funcionaram, quando calendários foram queimados. Nós nunca tivemos controle sobre a vida, mas só percebemos isso quando a vida parece não existir mais. A existência se tornou duvidosa, a vida, ninguém comenta mais sobre isso.

Chutaram a porta, um sensor de movimento ligou as luzes. Que lindo, pensou o da esquerda.Há quanto tempo não se via uma lâmpada acesa. Olhar diretamente na luz deixa os olhos doídos, mas eles não se importavam. Admiravam cada lâmpada acessa como se fosse um clarão celestial, um chamado de Deus para um mundo melhor, arrebatamento, terra prometida, utopia. A luz transmitia tudo isso. A dor nos olhos começou a se tornar insuportável, passaram saliva na camisa e limparam os olhos, como se isso fosse ajudar em algo. A visão voltava. No fundo da sala havia oito vultos, parados, atrás de uma luz melhor. Não se mexiam, podiam ser estátuas ou demônios. Nos seus pés tinham dez cadeiras e muitas mochilas. Deviam ser 15 mochilas. O da esquerda começou a tremer, podiam estar armados, ou pior, podiam ser mortos, desejando a vida, poderiam assassiná-los e roubar suas almas, assim tinham as energias para voltar a andar na terra dos vivos. Esquerda  cochicou no ouvido da direita Melhor sairmos daqui, talvez eles tenham algo a ver com Suh-Tlam, com a profecia, com os números grandiosos, com as quedas, Deixa de besteira, homem, disse o da direita, São ou só manequins, ou pessoas que ficaram em choque, vamos chegar perto das mochilas, deve ter algo lá. Eles se aproximaram três passos. Os oito vultos recuaram três passos. Eles se aproximaram cinco passos. Os oito vultos recuaram mais cinco passos. Não faremos mal, disse o da esquerda. Os dois se aproximaram, bem devagar, mais 7 passos, e os oito recuaram mais 5 passos. Chegaram na parede e nas luzes, não havia para onde fugir. Os dois se aproximaram mais e mais, chegaram nas mochilas e nas cadeiras. Pare, gritou um dos oito, e saiu correndo, tropeçando, se jogou no chão e abraçou o máximo de mochilas que podia. Estava tremendo de medo. Era um garoto, jovem, cabelo curto, calças jeans sujas de barro e uma camisa branca toda rasgada. O que querem aqui?, disse o garoto, Estamos com fome, estamos procurando comida, disse o da esquerda, Tudo é nosso aqui, saiam, disse o garoto. O da direita se abaixou, olhou para o garoto de forma ameaçadora. Ele tremia e suava. Depois o olhou de forma mais suave, amigável. Perguntou O que tem nessas mochilas, rapaz? O que seus amigos e você estão escondendo?, Não te interessa, vocês dois não deviam estar aqui, E onde deveríamos estar?, No inferno, mortos, e no mundo físico, estirados numa rua qualquer, sendo lambidos e devorados por cachorros e gatos, Esse é o destino de todos, né, criança? Há esperança para nós? Para você? E onde você e seus sete amigos deveriam estar?, Longe daqui, bem longe, E qual o motivo deles ainda estarem se escondendo nas luzes, ali naquela parede, deixando seus rostos nas trevas?, Vocês tem armas?, Ninguém mais tem armas, rapaz, pra que serviriam? Conseguir comida?, Isso, isso mesmo, comida, moradia, uma forma de fugir, Fugir para onde? Fomos deixados aqui para nada mais nada menos do que morrer, vimos a necessidade de preparar os alimentos e racioná-los, simplesmente entrar nos estoques de mercados e comer farinha pura não deu certo, o mundo não acabou, há ainda um pouco da vida moderna por aí, padarias estão sendo reabertas, sabia? Comemos pão hoje de manhã, pão quente e feito na hora, e você e os sete? Comeram o que? Há quanto tempo não saem daqui de dentro?, Saiam, disse o rapaz. 3 homens e quatro mulheres, esqueléticos, fedorentos, com trapos rasgados e o que antes eram consideradas partes do corpo que deveriam ser escondidas, aparecendo. Os homens tinha longas barbas, usavam turbantes de toalhas os que tinha cabelos curtos e os que tinham longos, elásticos e bonés. Duas mulheres tinham o cabelo raspado. Uma outra tinha o seu longo cabelo, preso, e a última usava uma cartola, furada, desbotada, amassada. Todos com roupas ralas, curtas, rasgadas, sujas. As mulheres sem sutiã, alguns seios aparecendo, e os homens usavam a cueca por fora da calça pois suas calças estavam rasgadas naquelas áreas, e quando ventava, incomodava. Nossa, vocês parecem as pessoas dos primeiros meses, disse o da esquerda

Morte e vida

Morte é tipo aquela tiazona que aparece do nada na tua casa no domingo e estraga teu dia. Morte é tipo isso, vem e nem avisa, nem liga, nem buzina no portão. Você vê e ela já tá abrindo a porta falando “olha só, como você cresceu”. 

Tem muito tipo de morte. Tem as morte morrida, as morte matada, e as morte que nem morreram morreu. As morte morrida é morte de velho e de doente, as morte matada é na bala, na faca, no carro, no infarte de big mac. As morte que é preguiçosa, que é covarde, as que nem pra morrer serve, são tipo daquelas sinhora que ta no avião indo pra casa da irmã daí dá aquela trubulência brava e ela já começa no “vá de retro, Deus é mais”. Daí ela vê tudo ficando mais lento, daí ela vê uns anjo, daí ela vê um buraco preto e uma luz no fim. Daí o avião melhora, ela volta ao normal daí fica contando prazamiga do cabelereiro como foi esse renascimento. E pra irmã também. Mas isso serve também pros homem que ta lá na rua, aproveitando seu delicioso ambúrgui de carne bovina, no seu terno bem cortado, e daí vem a dor no peito, começa a suar, para de respirar, e mesma coisa: vê tudo lerdo, fica tonto, anjo, buraco, luz. Acorda num hospital e já volta pra lanchonete. 

Ninguém entende da morte pq a gente é bicho vivo, e bicho vivo nem da vida entende. A morte nem existe. Todo mundo morre, mas vc nunca morre com elas. Você vê todo mundo morrendo do teu lado, mas você nunca morre. E daí quando você morre, você nem percebe que morreu, pq morreu. Daí ninguém saiu da vida na morte pra ir pra vida vivida pra contar pros vivos se viu deus ou o diabo. É tudo ou espírito, ou anjo, ou luz no fim do túnel. Mas ninguém viveu na morte. 

Vida é outra doidera. Deus quando criou a vida criou tudo doido. Ninguém sabe dizer onde a vida começa, só sabe quando termina. Tem uma galera que diz que a vida começa lá nos piriri-pororó reprodução coisa e tal e o resto já sabe. Daí tomar pílula é assassinato. Outros dizem que é no gozo lá nos piriri-pororó coisa e tal. Daí camisinha é genocídio. Outros dizem que vida nasce no saco. Punheta é holocausto.

Os bicho vivo não entende a vida. Diz que pra entender uma coisa, cê tem que sair da coisa e ver de fora e dizer “isso é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Sair da vida é ir pra morte, e como ninguém morreu e viveu a morte pra falar como a vida é, e depois voltar vivo na vida e viver pra contar a história de como é viver a morte e de como é a vida, fudeu. 

Tem muito tipo de vida. Aquelas vida viva, e vida morrida. Não, não tem muito tipo, só dois mesmo. Vida vivida é aquela que o cara olha pra cima na chuva e todo molhado suado e fedido grita “eu amo estar vivo”. Vida morrida é aquela vida tão chata ou tão triste ou tão chata e tão triste que seria melhor viver na morte. Mas as duas coisas são vida e nós como bicho vivo não entendemos nenhuma das duas. A gente só tá aqui.

Falando nela

Um de seus olhos já se tornou a lente de uma câmera de tanto que este já viu o mundo através duma. Um olho que mostra a beleza, a poesia, um mundo transcendental através de uma imagem numa folha de papel ou numa tela. O outro olho vê diretamente na sua alma. Quando não está vendo a alma das pessoas, o olho se ocupa de ver a alma do mundo que habita. A beleza na desgraça. Mostra a poesia escondida na queda do império da alegria, numa tela, num pedaço de papel, algo que foi escrito, desenhado. Seus olhos não somente enxergam, eles vêem.  Sobre os dois olhos, uma cortina negra, fazendo uma curva e no fim, uma ponta. Ela gosta de se pintar. E gosta de pintar os outros também. Deve ter flores das mais perfumadas crescendo dentro de suas narinas. Muito perfumadas. Provavelmente rosas sem espinhos. É necessário bons cheiros para abafar os ruins. Talvez seja assim que ela sobreviva aos meus abraços fedorentos. Abaixo do nariz, uma boca. Suave, doce. Só diz coisas lindas. As vezes se abre para um beijo. Este, sempre molhado. Risos são tirados no meio do beijo, sempre. Sempre é dito “nossos ridículos e adoráveis beijos molhados”. Comentários nunca faltam, e neles, nunca faltam risadas. Seus cabelos encaracolados, enrolados como sua cabeça. Eles revelam muita coisa de você. 

É… finalmente te entendi. Você não nasceu e nem morrerá, você é a vida.

Por isso nunca devo te entender.

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